Quando pensamos em envelhecimento saudável, é comum lembrar de pressão arterial, colesterol, alimentação e exames preventivos. A força muscular, porém, também merece atenção. Ela está diretamente relacionada à capacidade de continuar realizando atividades cotidianas com segurança e independência.
Levantar-se de uma cadeira sem precisar dos braços, subir escadas, carregar compras, caminhar com segurança ou recuperar o equilíbrio diante de um tropeço parecem movimentos simples. Na prática, todos dependem de força muscular suficiente.
Com o passar dos anos, é esperado que ocorram mudanças na massa e no desempenho muscular. Quando essa perda se torna mais acentuada, tarefas antes automáticas podem começar a exigir esforço e a autonomia pode ser comprometida.
Força muscular vai além do tamanho dos músculos
Na geriatria, observar apenas a quantidade de massa muscular não conta toda a história. A capacidade de produzir força e utilizá-la nas atividades diárias também é importante.
Por isso, avaliações funcionais relativamente simples podem trazer informações relevantes. A força de preensão das mãos, por exemplo, pode ser medida com um dinamômetro. Outro recurso utilizado é observar o desempenho ao levantar-se de uma cadeira, movimento que exige principalmente força dos membros inferiores.
Um estudo publicado no JAMA Network Open, que acompanhou mais de 5 mil mulheres entre 63 e 99 anos, encontrou associação entre maior força de preensão, melhor desempenho ao levantar da cadeira e menor risco de morte durante aproximadamente oito anos de acompanhamento.
Esse tipo de resultado não significa que um teste isolado consiga prever quanto uma pessoa viverá. Ele reforça, porém, que a força muscular pode oferecer informações importantes sobre a saúde e a capacidade funcional durante o envelhecimento.
O que a força tem a ver com independência?
Músculos participam de praticamente todos os movimentos necessários para a vida cotidiana. Quando há perda de força, pode surgir dificuldade para caminhar, levantar-se, subir degraus, carregar objetos e realizar tarefas pessoais sem assistência.
Essa redução também pode contribuir para maior vulnerabilidade a quedas e para uma recuperação mais difícil depois de uma doença ou período de internação.
Existe ainda uma relação com outros sistemas do organismo. O músculo esquelético participa do metabolismo da glicose e do gasto energético, enquanto a manutenção da força depende da interação entre músculos, ossos e sistema nervoso.
Por isso, preservar a função muscular ao envelhecer tem implicações que ultrapassam a mobilidade.
É possível ganhar força depois dos 60?
A idade, por si só, não impede que os músculos respondam ao treinamento. Pessoas mais velhas também podem ganhar força e melhorar a capacidade funcional quando recebem estímulos adequados.
O exercício deve ser prescrito e adaptado às condições, limitações e objetivos de cada pessoa. De maneira geral, um programa voltado ao envelhecimento saudável pode combinar exercícios resistidos, atividades aeróbicas e treinamento de equilíbrio.
Também entram nessa avaliação aspectos como alimentação, ingestão adequada de proteínas quando indicada, sono, doenças existentes e medicamentos em uso.
O objetivo não é simplesmente aumentar músculos. É preservar aquilo que eles permitem fazer.
Alguns sinais merecem atenção
A perda de força nem sempre é percebida de uma vez. Muitas vezes, ela aparece aos poucos: a pessoa passa a usar os braços para levantar da cadeira, evita escadas, sente dificuldade para carregar objetos que antes eram leves ou começa a caminhar mais devagar.
Essas mudanças não devem ser consideradas automaticamente uma consequência inevitável da idade. Elas podem indicar a necessidade de avaliar força, mobilidade, equilíbrio, alimentação, doenças associadas e outros fatores que interferem na capacidade funcional.
Cuidar da musculatura ao longo do envelhecimento significa investir na possibilidade de continuar se movimentando, fazendo escolhas e realizando atividades cotidianas com independência.
Dr. Fernando de Oliveira
Médico Geriatra
CRM-SP 191705 | RQE 95226 e 116143